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Sou Mais Eu...

Sou Mais Eu...

27.01.17

O Explorador....

soumaiseu

E esta madrugada o filho encontrou o pai a tentar caçar pulgas. Já se tinha despido da cintura para cima e revolvia a roupa à procura...

- Então? Que estás a fazer?

- Estou a apanhar pulgas. Não me deixam dormir com as ferroadas que me dão...

- Mas não há pulgas cá em casa...

- Estão na cama, sinto-as a rabear nas costas... 

O filho procurou com ele as ditas pulgas. Não havia nenhuma pinta de sangue, a marca concreta que as pulgas deixam quando nos picam. Tendo nós duas gatas em casa podia eventualmente haver alguma, mas não encontrou nada. Nem na roupa nem na cama... O sogro lá se deitou, não muito convencido, mas lá acabou por adormecer...

25.01.17

O Explorador...

soumaiseu

Enquanto varria a casa dei com o sogro a vestir umas calças por cima do pijama.

- Então? Veste as calças por cima do pijama?

- Não faz mal! Assim estou mais quente.

- Está bem! Já não volta para a cama?

- Não.

- Quer que lhe ligue a televisão?

- Não, não quero televisão. Primeiro vou tratar dumas coisas que tenho para tratar.

- Que coisas?

- Vou lá fora à hortaliça...

- Deixe lá a hortaliça, eu daqui nada trago-lha quando for buscar a Rita à escola...

- Não é para comprar! É para vender!

- Vender?

- Sim, quero ver se arranjo alguma coisa para vender. Se der algum deu, se não der paciência...

Pensei para comigo "pronto, lá vamos nós passear outra vez..." Entretanto lembrei-me que o sogro é viciado em noticias e pus-lhe a televisão no seu canal preferido, a SIC Notícias. Ele saí do quarto e eu insisto:

- A televisão da sala já está ligada...

- Não quero televisão. Vou dar uma volta...

Começo a stressar...

- Onde? Ó pá! Não me diga que hoje há passeio?! Olhe que está frio....

Ri-se e com ar de gozo responde-me:

- Vou dar uma volta vou.... - faz uma pausa para ver a minha reação e continua - mas vou dar uma volta mas é aqui em casa!

Olha o engraçadinho, hein? Para a próxima dou-lhe uma vassourada!

(E acabou por ficar grudado nas notícas e já não foi em "busca da hortaliça"....)

10.01.17

O Explorador....

soumaiseu

IMG_20170110_103850.jpg

(Foto minha: Boneco antigo, que era meu, passou para a minha filha e que temos a decorar a casa-de-banho)

Segundo o marido (porque eu ferrei no sono e não dei por nada), o sogro hoje aterrorizou a existência deste boneco. Às duas da manhã agarrou no desgraçado e quis fazer um tampão com ele. Sentou-se na cozinha com o dito na mão enquanto estudava as suas hipóteses.

- Que tampão? 

- Um tampão. Já vais ver!

- Mas isso é da Rita -  dizia-lhe o filho.

- Mas vou fazer um tampão...

O filho não se atreveu a sair de ao pé dele com medo que ele resolvesse esquartejar o boneco. Até que se cansou e o largou dizendo que afinal não dava...

Nem os bonecos da Rita escapam ao terror do Indiana Jones cá de casa... Oh, vida! 

21.12.16

O Explorador...

soumaiseu

Cheguei à conclusão que tomar conta do sogro tem sido uma brincadeira de bebes desde que ele veio cá para casa. Nos últimos dois dias o sogro tem estado em crise. Iniciou todo um discurso desconexo e repleto de palavrões. Está desnorteado, agressivo, ameaça as gatas que lhe dá uma bengalada que as "f..de!". Aponta a bengala à neta e dispara um tiro. Chama-lhe galinha. Roga a morte à minha mãe. Diz-me claramente que a minha obrigação é lavar o que ele suja. Há duas noites atrás não dormiu. Combateu o sono tal como uma criança que se recusa a fechar os olhos, falando constantemente, dizendo palavrões, ameaçando tudo e todos, batendo sistematicamente com a bengala no chão num movimento rítmico extremamente irritante, mexendo constantemente os pés enquanto está sentado onde calha porque andar ou manter-se em pé é quase impossível... 

- Que estás a fazer? Para quieto com os pés! - diz-lhe o filho.

- Eu estou a andar, não vês? Estou a andar à 10 minutos e não há maneira de chegar ao meu destino...

Cinco da manhã. O filho não dorme porque o sogro se recusa a ir para a cama. Não tem sono e ainda é cedo, diz ele. Encontro um marido desnorteado. Já tentou de tudo. Nada o faz deitar-se. Sugiro-lhe que ligue para a Saúde 24. Durante a chamada descobrimos que tem os diabetes a 251. Acaba por ir para o hospital com o INEM. São feitas as análises ao sangue e à urina de rotina, nada se deteta. É visto por um neurologista que tem acesso ao processo e que imprime o relatório dos testes neuropsicológicos já realizados para nos dar essa informação: a psicóloga conclui o relatório com o diagnóstico de Demência de Grau II. Continuamos à espera que o chamem para internamento a fim de realizar as punções lombares que irão concluir definitivamente o diagnóstico. Entretanto vem para casa com medicação para dormir e uns pensos para estabilizar a doença. 

Ontem. Durante o dia continua desnorteado e incoerente.  À noite, já sob o efeito do comprimido para dormir o sogro continua a combater o sono.

- Ainda é cedo. 

- Vai para a cama. - diz-lhe o filho.

- Hei-de ir, mas ainda é cedo...

Vai à casa de banho urinar. Mal se mantém de pé. Acaba por fazer na fralda não tenho consciência disso. Com as calças nos tornozelos quase se mata ao desequilibrar-se. Ao segurar-se para não cair descola-me a pedra mármore do lavatório da parede. Perdemos ambos as estribeiras com ele. O filho passa-se, grita-lhe. Manda-o para a cama imediatamente de uma forma firme e assertiva. A caminho do quarto ainda tenta ir "ver se está tudo bem na sala". O filho não deixa e impõe mais uma vez a sua vontade. Conseguimos finalmente po-lo na cama. Meia hora depois já ressonava.

Até agora tem sido tudo muito fácil. Pressinto que agora sim, agora as coisas vão começar a complicar. No espaço de cerca de um ano o sogro atingiu o segundo grau de demência. Pergunto-me quanto tempo levará a atingir a última fase... Nem quero pensar naquilo que nos espera. Difícil! Muito difícil! Avizinham-se tempos muito complicados... Oh Deus! 

28.11.16

O Explorador...

soumaiseu

Um quarto para as cinco da manhã. Sobressalto com o Toc-toc da bengala no chão. Acordo o marido. Digo-lhe que o pai anda outra vez a passear pela casa. O marido levanta-se e encontra-o na sala.

- Que andas a fazer?

- Estou a ver se há por aqui alguma coisa para roubar...

- Para roubar?

- Sim... isto é uma mesa... isto é uma cadeira... aqui é roupa...

- Não há aqui nada para roubar, estás em casa...

- Mas deixa ver, pode haver aqui alguma coisa...  e ali? - referindo-se ao nosso quarto.

- Ali também não, é onde nós dormimos...

- Então deixa lá ver melhor... pode haver aqui alguma coisa para roubar...

Levanto-me da cama, encontro as coisas no corredor reviradas e espalhadas pelo chão, e no chão do quarto dele um lago de urina. No meio da confusão mental algo correu mal e aliviou-se mesmo ali. Um limpa o chão outro arruma as coisas. Depois passo por ele e pergunto:

- Porque é que está acordado?

- Ah, espalhei o sono e agora estou acordado...

- Sabe que horas são? Veja lá no relógio as horas.

- São cinco...

- São cinco da tarde ou da manhã?

- É de noite...

- Então são cinco da manhã. O que é que se faz a esta hora? 

- (Confusão)

- A esta hora as pessoas normais dormem. Porque é que você anda a passear pela casa a esta hora? Vá dormir! A esta hora dorme-se!

- Está bem, vou-me deitar mais um bocado...

E assim fez. Ficámos sem saber se ele queria roubar alguma coisa ou se queria precaver-se contra terceiros.

E nós? O marido adormeceu de imediato, eu, irritada e perplexa com o charco no chão perdi o sono. Às 6 e pouco ainda estava na net a absorver informação sobre demência vascular e punções lombares... Vou ficar craque no assunto. Oh, vida! 

24.11.16

O Explorador...

soumaiseu

Ontem ao jantar o marido pergunta:

- Queres coxa ou perna? (referindo-se às pernas de frango estufadas que íamos comer)

- Quero uma asa! 

É do contra! Quando há asas quer pernas e fica de trombas porque a neta come as duas, quando finalmente há pernas para toda a gente o Indiana Jones lembra-se de pedir asas... Que irritante

21.11.16

Sinto falta...

soumaiseu

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(Foto retirada do facebook)

De tempo para mim. Para a minha filha. Com o sogro cá em casa resta-me muito pouco tempo. Os meus dias são passados em cuidados constantes: cozinha, dá de comer, dá medicamentos, dá lanches, limpa, muda de roupa, lava roupa, limpa a casa, muda camas... Não é fácil a minha vida! Levo com os achaques do sogro, com os dos meus pais que "vivem" cá enfiados, com os comentários tristes de quem me diz "Ah, mas ele está muito bem! Estás a fazer um bom trabalho com ele..." e ficam a olhar para mim quase que à espera de um "Obrigada". Berdamerda! Preferia que me perguntassem como EU estou, se EU consigo dar conta do recado, se EU estou bem, como anda a MINHA cabeça... Claro que o o sogro está bem tratado, quem me conhece sabe de antemão que jamais eu seria capaz de o maltratar ou de o tratar menos bem. Mas custa. Custa ouvir as censuras dos outros. O insinuar que ele não é assim tão demente. Que estamos a exagerar. Que somos maus e insensíveis  quando contamos as expedições que ele faz à casa aramado em Indiana Jones... Olham para nós como se fossemos uns queixinhas intriguistas. Deixei de contar, deixei de desabafar. "Está tudo bem?", "Está tudo óptimo...", "O teu sogro como está?", "Está porreiro...". Não sabem o que é viver numa casa que é nossa mas onde temos de esconder as chaves da porta para prevenir fugas, onde os móveis que tem essa possibilidade estão também eles fechados à chave, o ouro está trancado num cofre, o dinheiro que guardamos em casa, essencialmente dinheiro que dão à Rita, está escondido na prateleira mais alta do roupeiro mesmo lá atrás... Tudo porque o Indiana Jones nas suas expedições considera muitas vezes as nossas coisas como "porcaria" e tenta livrar-se delas... Tenho dito muita vez que bastava uma semana com ele para terem noção do que é viver numa prisão. Quem não sabe é como quem não vê... infelizmente! E nestas situações torna-se tão fácil apontar o dedo aos outros...

29.10.15

Troca-tintas

soumaiseu

Todos os dias o marido fala com o pai, viúvo, de 72 anos a viver sozinho. Acontece que a audição já não é o que era (embora ele diga que ouve muito bem) e ultimamente dá azos a grandes confusões. A maior parte das vezes desligam-se os telemóveis sem que o filho se tenha feito entender e sem que o pai tenha percebido o que quer que seja... Hoje a confusão foi esta:

Sogro: Então a Rita está melhor?

Marido: Sim, já está melhor... já foi à escola... Queixa-se que ainda lhe dói a garganta....

Sogro: ???

Marido (provavelmente levantando a voz): Sim, está melhor mas a garganta ainda lhe dói...

Sogro: Então tens de a mandar desentupir...

 

 Conversa de parvos é o que é! 

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